Arquivo de agosto, 2012

Na Estrada?

Publicado: agosto 19, 2012 em Contingência


Algo sai do lugar, na sua cabeça, quando você lê “On The Road – Pé na Estrada”. Em especial, se você é um moleque sem um tostão no bolso, louco por independência.

Ficamos entorpecidos com a prosa desesperada de Jack Kerouac, sem ponto e sem parágrafo, sobre as viagens de Sal Paradise e o doido “HIP HIP HIP” Dean Moriarty, repletas de sexo, bebida, drogas e jazz, e eles se dão mal e depois se dão bem e depois se dão mal de novo e se preparam para fazer mais uma viagem num trem ou na boleia de um caminhão ou sentados nos bancos de um grande tubarão cinza cruzando a América a 120 milhas por hora.

Todo esse torpor nos leva a crer que aquela é a resposta aos nossos anseios, apesar de seus percalços intrínsecos. Em algum momento, Kerouac, cansado de tanto apanhar do mundo inóspito, mas seguindo otimista, fala assim:

– Essa estrada ainda vai me mostrar suas pérolas.

Jack e os beatniks, todavia, não foram os paladinos da liberdade que eles mesmos imaginavam, nos conta o blog máquina de escrever. O próprio autor morou com sua mãe até o fim, a quem recorria quando as coisas apertavam de verdade, e quem sempre lhe esperava de portas abertas enquanto o filho consumia “quantidades industriais” de drogas e bebidas.

Saber um pouco da realidade ao fundo da história ajuda a desmistificar minha ilusão juvenil: se eles tiveram culhões para fazer o que fizeram, por que eu não posso ter?

Desilusão à parte, não posso negar que senti um arrepio quando os créditos do filme de Walter Salles começaram a subir, enquanto ao fundo tocava a canção do jovem errante. Assistir ao longa-metragem foi um doce retorno às páginas de “On the Road”.

Ainda que não consiga descrever racionalmente a sensação, foi possível lembrar a mesma inquietação de querer chutar os planos da vida adulta para o espaço, sair pela porta e não olhar para trás.

O furor, no entanto, durou tanto quanto uma noite de frenesi qualquer. Na manhã seguinte, a adrenalina não passava de uma ressaca.

A distância entre eu e aquele moleque que leu o livro há 10 anos, ao menos, me permite entender uma coisa: “On the Road” vai muito além de aguçar a curiosidade pela aventura.

Kerouac e sua prosa espontânea deslocam a responsabilidade de um jovem leitor. Colocamos em xeque o destino traçado pela sociedade e defrontamo-nos com o medo de largar o porto seguro, para descobrir o mundo com nossos pés.

Mais profundo que o desejo de ter o trilho como lar, é a vontade de começar a escrever desesperadamente, a exemplo do beat, achando que sua missão na Terra é preencher páginas em branco. Uma tentativa de não se render a um percurso pré-determinado, e traduzir aquilo que você veio dizer em um relato de liberdade.

Então, de repente uma década se passou. Se por um lado, nos vemos resignados ao tempo, com contas a pagar e empregos a tocar, por outro, a responsabilidade nos ensina a duvidar sobre qual o sentido de sair correndo por aí, sem rumo, atrás de mulheres, bebidas e vertigem.

Não seria apenas uma tentativa de preencher o vazio abissal de nossos dias? Ou valeria a pena trocar a segurança por intensos momentos, ainda que efêmeros?

Não há vitória nesta decisão.

De resto, seja qual for o caminho escolhido, sempre há a hipótese de se narrar a própria história. E vendo ao filme de Salles, ou lendo o livro de Kerouac, lembramos que cair na estrada ainda é uma ótima maneira de encher de tinta a caneta de um escritor.

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Eduardo Pastore