Um bumerangue da África

Publicado: julho 9, 2012 em Contingência

O quanto nós estamos abertos a escutar algo novo? De algum lugar inesperado? Com referências musicais distantes?

Pessoalmente, sinto uma preguiça danada. Se mal dá tempo de pesquisar sobre as coisas que eu já gosto, vou me arriscar a perder tempo?

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Não perder tempo: esse é o mantra. Há tantas demandas nos puxando por todos os lados, não sobra um minuto para nada, simplesmente. Escutar um álbum inteiro? Nem pensar.

Ainda bem que surgiram as timelines das redes sociais. Alguém já teve o trabalho de filtrar, nós não precisamos gastar energia garimpando uma tonelada de listas de músicas.

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Vivemos a chamada Era das Recomendações. Nós temos 70% de chance de confiar em alguma recomendação, contra 14% de confiar numa publicidade tradicional. De onde surgiu esse dado? Da Internet.

Se é confiável? Bem, me recomendaram, então eu passo adiante.

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De modo que ultimamente impera, neste espaço de reflexão sonora, o reativismo à experiência. Ao menos de minha parte. Muita coisa passa ao largo.

E se dependesse da boa vontade,  seria esse o caso de Amadou & Mariam. Parar na prateleira do world music da falida Discoteca 2001. Daquelas que eu passava longe, quando ainda havia lojas de CD.

Mas não pensem que descobri por causa do Twitter ou do Facebook. Pensando bem, as timelines são bem conservadoras. Ninguém quer se arriscar muito.

Na verdade, quem me recomendou o CD foi o Manu Chao (?).

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Não em pessoa, claro. Tenho, contudo, uma tendência a confiar no que o macambúzio faz. Mesmo com as peças que ele nos prega em Brasília, quando aparece tresloucado para tocar nos shows do Arena.

Bem, há uns anos, caiu na minha mão um CD do casal de malineses produzido pelo Manuzão, chamado Dimanche à Bamako. Foi mais ou menos como um bumerangue arremessado direto na testa.

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Gosto desse tipo de descoberta. Normalmente eu taco o bumerangue para cima, esperando que ele volte e bata na cabeça de novo. Com mais força, se possível.

Ouvi sem parar Senegal Fast Food.

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Por esses dias, o casal andou nas páginas da Folha. Tocaram no festival Back2Black, em Londres. E sabe o que Amadou falou:

"No exterior, a música africana continuou por um bom tempo (*) sob a etiqueta de 'world'. Tivemos de derrubar essa barreira para destacar a importância do blues e do rock para nós."
(*)Adaptado.

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Amadou pegou leve. Ficaria melhor assim:

– Nós fazemos rock da África, caralho!

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Às vezes, dá trabalho descobrir o novo. Às vezes, vale a pena.

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Eduardo Pastore

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comentários
  1. Haitam disse:

    Excelente post Pastore!!!!

  2. Tribst disse:

    Som fera, Pastore!
    Apesar de que, ouvindo só essa música – e escutei mais de uma vez, hehehee – não classificaria como Rock. Tem umas músicas dos Chemical Brothers que seguem essa toada aí.
    E a metáfora do bumerangue é bem fidedigna, mesmo. Ocorreu assim comigo com algumas bandas.
    depois te deixo um pen drive pra tu me passar esse disco deles, valeu?
    Abs

  3. Por Ian Schechtman:

    Cara, me lembrou disso aqui:
    http://www.youtube.com/watch?v=MZXlgNMDK3E
    Não por semelhança musical, mas por vir de um lugar incomum! E por misturar estilo local com o global!
    Abração

  4. […] lendo seu ultimo mail lembrei de uma música “do meu gosto” musical que acho que vai te lembrar de algo que gostou (samples vieram do que vc postou no seu blog!!!) […]

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