Arquivo de abril, 2012

Não paro de ouvir 4

Publicado: abril 30, 2012 em Contingência

Mais um cover iradíssimo dos The Cócs. Ainda nem ouvi as músicas originais. Estão vindo aí pra Sampa. A promessa é boa.

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É moeda corrente que o Foster The People fez um dos melhores shows do Lollapalooza. Uns caras danados de bons. Bonitos e tal, mas sem frescurada. Apesar de eu só conhecer AQUELA música, todas as que eles tocaram chacoalharam a plateia insana do Lolla.

Aliás, já parou para ouvir a letra? Uma loucura, sem pé nem cabeça. E mesmo tendo uma letra desvairada, ela é grudenta & grudenta.

Não entendo muito bem o que algumas músicas têm de especial. Mas existe uma certa capacidade constante de um punhado de acordes, já tocados mil vezes, nos tirar do sério. Ainda que tenhamos escutado uma canção dez vezes seguidas, não importa, cada vez é diferente, é nova. Não é como assistir a um filme dez vezes.

É mais como passar um perfume dez vezes. Você fica perfumado, e vai viver o dia novo.

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EP

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Sobre Biscoitos e Pintos

Publicado: abril 30, 2012 em Contingência


Da primeira vez que eu ouvi a respeito, o Gordo falou assim:
– você tem que escutar “the cócs”.

Com este som, fica “The Cocks”. Pensei, quem em sã consciência colocaria na própria banda um nome desses? Eu mesmo já pensei em um nome estrambólico para um projeto: “Fish and The Chips”. Obviamente, ninguém topou. Mas nunca tive a audácia de propor algo como “Os Pintos”.

Depois, no Youtube, vi que escreve mesmo “The Kooks”. O radialista do clipe chamou-os: “the cookies”. Mas sem o “e”.

Para resumir, não sei ainda pronunciar esse raio de nome. Ficamos assim, algo entre cookies e cocks.

Resolvida a questão do nome, fui surpreendido. Que nem o Dodozão, que falou que estava apaixonado, no outro post, pelos Black Keys. Essa coisa de uma música nos agarrar pelo pescoço, de quando em quando, é realmente magnífica.

De vez em quando somos surpreendidos. Uma coisa simples, uma música simples. Que interrompe nossa pequena rotina acachapante, e nos leva para algum lugar perto das estrelas.

Dica do Gordo.

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Eduardo Pastore

De cara nova

Publicado: abril 25, 2012 em Contingência

E atenção! Saiu o resultado da primeira enquete alucinada da Tirania: qual será a próxima cara do blogão.

1) http://wordpress.org/extend/themes/greyzed

2) http://wordpress.org/extend/themes/spectrum

3) http://wordpress.org/extend/themes/modularity-lite

 

E a vencedora é a opção 1) http://wordpress.org/extend/themes/greyzed.

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Eu também gostei bastante desse tema. Agradeço a todos e todas que participaram. Em especial à Roberta (Dani), Sérgião, Peter e Helder Meninão. Valeu galera!

Agora, Tirania da Contingência de cara nova.

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EP

No boteco de Bob

Publicado: abril 24, 2012 em Contingência

E lá estávamos nós, novamente, prontos para jogar o tempo fora em alguma coisa sem sentido. É uma bela arte. Convenhamos.

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Eu QUASE não fui. Só fui por uma insistência horripilante da minha própria mente. Enfim, o argumento era bom: assistir a um show da turnê sem fim do Bob Bylan. Em Brasília. No Nilson Nelson.

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O Nilson Nelson é um hambúrguer de concreto, feito para torneios de basquete. Alguém descobriu que era barato alugar um hambúrguer de concreto para produzir shows. Pronto. Um belo jeito de viabilizar shows internacionais na Capital – sempre um risco.

Dito isso, é importante entender que um hambúrguer de concreto não tem, e nunca vai ter, qualquer resquício de qualidade acústica. O som do Bob Dylan estava uma merda.

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Mas o som, mesmo estando do jeito que estava, estava um pouco melhor que a voz do próprio cantor. Creio que especificamente neste show, Bob não ia bem da garganta. Sua voz trovejava. Soltava arrotos guturais pelo microfone. Como se estivesse em seu próprio boteco.

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Li que em São Paulo, e também no Rio, Bob arrasou. Sua voz trovejava. Disseram que sua voz está melhor a cada ano, de tão rouca que está.

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Já em Brasília, afora sua rouquidão, para piorar, o velho Bob emendava todas as sílabas. Eu, nem ninguém da platéia, entendia uma palavra do que ele falava.

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Em contrapartida, no Rio, e também em São Paulo, disseram que Bob apurou seu estilo de cantar. Suas frases, quase ininteligíveis, são desafios aos ouvintes, que devem ficar atentos às desconstruções que Bob faz de suas músicas – fenômeno já conhecido entre os fãs.

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Em Brasília, a luz não ajudava muito. Uma luz de banheiro de 45 Watts, amarela, e outra, azul, tirada de alguma zona do baixo meretrício.

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Nas outras outras capitais, eles gostaram da iluminação. Era um convite à introspecção, habitat natural do Blues.

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Por fim, o som péssimo, os arrotos trovejantes e a luz de puteiro, esculhambaram o show de Brasília – só a banda salvava. Ótimos caras.

Mas em SP e do RJ não houve esculhambação. O show foi uma ode à genialidade. Não sei se foi o mesmo show. Se foi, só uma conclusão basta: eu, e bastante gente, estamos todos errados.

Estamos errados, porque o caminho mais fácil é avaliar o show de Bob conforme o metiê: qualidade de entretenimento. Detalhes como som, luz e voz, são desafios que o bom pagante deve transpor para absorver a energia criativa do cara que fez o Rock transar com o Folk.

Bob não está ali para entregar diversão de graça. Está ali para avançar em sua arte, evoluir suas canções, em público. Não precisa andar por aí agradando a quem não precisa agradar. Já está no panteão de quem mudou a música, mudou o mundo com sua música.

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Não cabe discutir quem está certo. Eu, provavelmente, não.

E já que meu jogo está perdido, e ele custou caro, me permito uma impropriedade. Uma pergunta infame.

Qual elemento é crítico, então, para diferenciar as percepções certas das erradas? A diferença entre perceber a genialidade de um artista ou perceber que você se fodeu, e jogou $250 pilas no esgoto (quem quiser arriscar na resposta, nos mande).

De minha parte, sem arriscar muito, a conclusão é parca: a régua da nossa percepção é muito vagabunda. É tão barata e se vende a tantos fatores, que não dá muito bem para confiar.

De resto, serve o conselho daquela música dos  Broken Bells “its too late to change your mind, if you get lost, be your guide“.

Se você foi e sentiu a mesma coisa que sente quando vai em um show e fala “aquele show foi do caralho”, o show do Bob foi do caralho. Se você entrou, entrou pelo cano – nós entramos de gaiato no mesmo navio.

P.S.: Ao menos, deu para rir bastante com aqueles arrotos. É uma bela arte. Convenhamos.

P.S. 2: Para lembrar que o cara é o CARA, um grande clipe feito em 2010, no RJ.

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EP

The Black Keys

Publicado: abril 19, 2012 em Contingência

Por Cláudio Miccieli Jr.

Fala Vacão!!

Bicho estou em love! Extasiado e extremamente animado em saber que o Rock ainda vive, sobrevive e se reinventa! Hoje tive a possibilidade de escutar no 100% de volume e com bons fones o disco do Black Keys… Caralhoooo…
Ainda bem que para o nascimento do Michel Teló temos um Black Keys! E para cada surgimento de uma nova Boyz Band temos um um novo Grupo de Rock… Bicho escute esses singles/CD:
– Black Keys: Gold on the Ceiling (repara na cozinha muito, mas muito bem feita) Aliás tentarei dividir com você meu devaneio sobre o meu clipe para essa música: Escute ela imaginando uma banda de Geek tocando com roupas estilo rock 70′ no meio do deserto de Nevada! Em um mix de cenas eles estão em um salão, onde deliciosas dançarinas de Can Can, fazem passos extremamente sexys! Juntas num incrível ritmo e harmonia… Imagina na hora do refrão elas naquele passo clássico de chutar o ar e a calçola de rendas aparecendo…
Para tomadas externas a  fotografia bem áspera, usando a luminosidade e o contraste do céu azul e o marrom das montanhas do deserto… Imagina como vocal um Geek com puta ôculos de armação grossa negra, tocando uma fender e fazendo caras e bocas de rockstar para camera… Em uma tomada ele está em cima de uma caixa d’água de zinco num sol escaldante… Enfim é essa viagem que tenho quando escuto essa música.
Sobre o BlackKeys recomendo a compra do CD. Muito bem feito! Melhor CD de rock que surgiu nos últimos tempos (na minha humilde opinião) pois não é algo difícil de digerir, de fácil paladar, mas não é algo singelo e pobre! Thanks God!
Estou animado! Ainda existe esperança nesse mundo… O que me preocupa é o Brasil? O que tem de bom ai?
Abs
Jr

A nossa cara

Publicado: abril 19, 2012 em Contingência

Lançamos aqui uma pergunta para todo mundo!

Vamos mudar de cara e queremos saber qual é a sua preferência. São três temas:

1) http://wordpress.org/extend/themes/greyzed

2) http://wordpress.org/extend/themes/spectrum

3) http://wordpress.org/extend/themes/modularity-lite

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Qual lhe agrada mais? Responda nos comentários!

Abraços!

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Eduardo Pastore

Um ano!

Publicado: abril 18, 2012 em Contingência

Se o blog fosse nossa esposa, provavelmente hoje dormiríamos no sofá. Aliás, estaríamos no sofá desde o dia 05 de abril. Ou então estaríamos na rua mesmo.

Teríamos de explicar que o aniversário foi no meio da semana atribulada do Lollapalooza.

Obviamente, essa conversa furada não ia convencer.
Então, para aplacar os ânimos, só um jantar a luz de velas, anel de diamantes, buquê de flores, com uns mariachis tocando.
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Lá se vai um ano desde o primeiro post. Desde então, entre sugestões, shows, pesquisas espontâneas de guardanapo, comentários e disparates, muita música já rolou.

Com o um ano de vida, o “salário” da Tirania está crescendo também. A média de acessos semanais aumentou. Aos poucos, sempre.

Aproveitamos para fazer um pedido, na hora de soprar a vela. Um pedido a todos os nossos queridos leitores. E queridas leitoras também. Nesse próximo ano, nos enviem mais sugestões, mais ideias. Divulguem, façam mais comentários. Esculachem. Sei lá.

Só queremos ouvir mais músicas e colocá-las no ar para que mais gente ouça mais música. Daí em diante. Há tanta coisa boa por aí. Ficamos combinados, então.
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E para comemorar o aniversário, chamamos uns mariachis. Obrigado a todos, por estarmos juntos nisso tudo. É simplesmente um barato.

 

Above & Beyond

Publicado: abril 15, 2012 em Contingência

 

Aparentemente, só eu não conhecia. Consegui parar de ouvir para o almoço, ainda bem.

Não sei se tem definição. Vou lançar essa aqui: house de fácil degustação. Uma delícia.

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EP

Lollapalooza: Memória e Delírio

Publicado: abril 11, 2012 em Contingência

Por que os organizadores escolheram o Jockey Club para fazer o Lollapalooza?

Não sei ao certo. Deve ter algo a ver com a disposição das barracas de hambúrguer gelado que eram servidos por ali, a fim de que aquela turba ensandecida de jovens não entrasse em colapso alcoólico. Ou então, tem a ver com os Tridents que eram arremessados por homens de macacão colã verde, sem cuecas. Debaixo de um sol egípcio, aquelas calças ficavam transparentes. Era um verdadeiro horror.

Mas como eu disse no parágrafo acima, não sei ao certo sobre o por que da escolha pela pista de corrida dos cavalinhos. A única coisa que eu entendo sobre os cavalinhos são os ensinamentos do velho Bukowski. Ele falava que apostar nos páreos sempre lhe rendia alguma lição. Só que ele não sabia qual.

Assim como ele, não sei ao certo as lições que a gente aprende indo nesses grandes festivais de música. Sinto, eu sei disso, é possível afirmar, que há uma sensação estranha de aprendizado. Algo profundo e obscuro, absolutamente NADA claro. O importante é isso: as lições nunca devem ser claras.

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Você apenas aprende o suficiente para querer ir ao próximo festival, de modo a aprender não sei o que, novamente. Por esse prisma, é bastante lúdico gastar rios de dinheiro nessa loucurada. Atrasando, procrastinando o GRANDE projeto da minha vida de classe média, escolhido a dedo pelos ótimos banqueiros altruístas. “Meu caro bosta, faça um financiamento para o resto dos seus dias. Você precisa comprar logo um imóvel”. Daí em diante.

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Bom, ainda que não seja o que basta para um relato fidedigno, fidedignidade não é bem uma palavra apropriada para descrever o que aconteceu naqueles dois dias de som e de fúria.

As coisas não aconteceram na ordem que eu vou dispor aqui. Seria infinitamente impossível. A essa altura do campeonato minha memória não passa de um mar revolto em desordem. As cenas se quebram como ondas de seis metros num paredão de pedra.

Há na verdade, memórias soltas no tempo. Algo como um delírio temporal. Parecido com o de Billy Pilgrim, o herói de Kurt Vonnegut, em “Matadouro 5”. Billy se soltou no tempo.

Ficamos combinados então, não há qualquer promessa de verdade nestas palavras. É melhor pensar que nós nos soltamos no tempo. Dito isso, vamos ao começo:

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Tudo começou, mais ou menos, por ali na entrada. Era um desfile de todo tipo de desvairados e loucos.

Enquanto eu andava pra lá e pra cá em busca de informação desencontrada, fui parado por um sujeito bem gordo, pesando uns 150 quilos, ostentando um bigode sujo de cerveja e bacon.

-Se você precisar pegar seus ingressos, fale comigo cara. Não deixe de falar comigo.

-Obrigado, meu chapa. Já peguei os meus.

-Tudo bem, mas não deixe de falar comigo, se você precisar pegar seus ingressos.

-Pode deixar.

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As hienas de plantão rondavam por ali, aos montes. Abutres sedentos de carne morta. Dávamos nosso jeito, driblando e mantendo a compostura com os desgraçados. Nos ofereciam de tudo. De água parada engarrafada à ingressos falsificados.

Um dos rapazes das camisetas “posso ajudar?” nos abordou, tentando vender ingressos falsificados. Sua voz era bem anasalada.

– Oi pessoal, tudo beleza?

Gordo viu os ingressos. E explodiu.

– Beleza é o caralho, meu irmão.

– Que é isso, compadre?

– Compadre é o cacete, não batizei seu filho.

Coisas da vida.

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Aos trancos, após pegar uma fila quilométrica, planejada pelo Ministério da União Soviética, conseguimos adentrar os portões do Jockey Club. E lá dentro fomos surpreendidos: mais filas quilométricas. Elas haviam, de alguma maneira, se multiplicado. Filas eram como amebas. Não precisavam trepar para se multiplicar.

Havia filas para tudo e qualquer coisa. Comprar fichas, pegar hambúrguer gelado ou chope quente e enfrentar os pântanos de banheiros químicos.

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A expressão talvez não seja “eu vi o show do Gogol Bordello”. Fica melhor assim: “eu não sei como sobrevivi ao show do Gogol Bodello”. Daí em diante.

Marcamos, via SMS, um ponto de encontro, na mesa de som do Gogol Bordello. O show dele era às 14h00, debaixo do sol egípcio, conforme eu já comentei sobre o estado do sol no início do texto. Starzão falou “estarei vestido de pirata”. A seu lado, Benezão também confirmou “irei vestido de Seu Madruga”. De modo que ficou bem fácil encontrar os dois por ali, no meio da multidão.

Afora a turba de jovens loucos que se encontrava em frente ao palco, ainda estavam ali Gordo, Mariscada, Marcoalhada, Starzão, Benezones, Pastelares e Thiagones. Enfim, estávamos todos por ali.

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Parado atrás da mesa do som encontramos o último dos remanescentes do Woodstock. Um viking de barba branca, fumando um longo e sinuoso cachimbo. Soltava longas baforadas no ar.

As baforadas iam parar na cara de uma repórter da Multishow e de um cameraman, que estavam numa torre de metal, acima do viking. Faziam a cobertura do evento, lá de cima. A repórter era impressionante. Todos os homens queriam ter filhos com ela, imediatamente após vê-la. De modo que os homens da plateia uivavam lá para cima, e jogavam corações e juras de amor eterno.

Coisas da vida.

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Então começou a grande apoteose cigana do Gogol. Um a um, o time mambembe de músicos adentrou o palco. Uma improvável reunião de pirados, de cantos estranhos do planeta. Por último, entrou o líder, de garrafa de rum em punho, pulando e jogando o líquido para o alto.

Estavam ali todos os ingredientes para o que foi, na verdade, uma grande micareta punk. Um congresso anual de piratas de Trinidad Tobago.

O percussionista, um índio louco em transe, vestindo a camisa laranja dos garis do Rio de Janeiro, trabalhava no sentido de deixar a multidão em constante força centrífuga. Ou centrípeta. Ou sei lá o que.

Uma gigante roda punk se formou rapidamente. Jovens se esmurravam e rodavam. Como era belo. A turba pulava & pulava, levantando toneladas de poeira no ar, que grudavam na testa. O suor caia nos olhos, lavando a poeira grudada na testa. Os olhos ardiam de tanta poeira misturada com suor.

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Em algum momento, o show acabou. Ficamos circulando por ali, à espera de um incêndio, ou então do mundo desabar. Não fazia a menor diferença.

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O que acabou desabando foram os céus. No fim do dia, começo da noite, as nuvens pretas descarregaram um rio amazonas em nossas cabeças. Depois que lavamos as carecas e olhos, fomos procurar capas de chuva.

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Descobrimos que as capas de chuva passaram, imediatamente, de R$ 5 pratas para R$ 20 pratas. Um espetáculo do crescimento.

Resolvi participar daquele milagre econômico. Comprei uma capa de chuva, e a chuva parou. Joguei a capa fora, e a chuva recomeçou. Comprei outra capa.

Todos vestiam aquelas capas, e viramos um exército de clones. Vestir as capas de chuva era o mesmo que vestir um saco de lixo. Nosso pequeno pelotão virou um exército de homens-lixo.

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Soltos no tempo, como Billy Pilgrim, eu e e pelotão de homens–lixo viajamos para a apresentação do Band of Horses. Como eles foram parar no line up do festival? Boa pergunta, a qual não consegui responder, pois você é automaticamente tomado de uma alegria triste. A voz do cantor, absolutamente, não combina com a figura pública dele. Em primeiro lugar, ele nunca foi ao dentista. É barbudo e usa um boné vermelho do sindicato dos caminhoneiros. “eu gostaria de agradecer … eu gostaria de agradecer, ao caminhoneiro que me deu esse belo boné vermelho”.

No baixo, um inflamado David Guetta, remexe sua cabeleira, entre acordes menores e solitários. A base da tristeza na música é formada por um acorde menor. Alguém já se deu o trabalho de pensar a respeito? Basta fazer análise estatística das harmonias no SPSS. É batata. Lá menor, Fá maior e Dó maior. Não dá outra: tristeza na certa. Um rio de lágrimas.

E por último, escondido atrás da guitarra, um Jeremiah barbudo. Provavelmente participou da Assembleia Constituinte dos Estados Unidos, é lenhador por profissão, e guitarrista nas horas vagas.

Eles tocam a última música do show, e o sol se põe ao som de “The Funeral”. Jeremiah arranca aquele dedilhado mortal da música. Lindo e triste. Melhor que num filme. Melhor que a porra de um filme.

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De alguma maneira, o sol se pôs, e nós já estávamos vestindo as capas de chuva. Pois a noite chuvosa já havia caído, de alguma maneira, antes do sol se por.

Estávamos soltos no tempo. Não me pergunte como.

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E o resto? Há muito o que se falar sobre a jambalaia lisérgica do Lolla. Uma mistureba de ingredientes. Formada por pitadas de sons do Foo Fighters, Artic Monkeys, TV on the Radio, Foster the People, Thievery Corporation, Velhas Virgens, Friendly Fires e mais um punhado de coisas alucinadas, como um DJ desgraçado e miserável, que fazia um barulho de derreter o cérebro…

Por hoje, é o que basta.

Eduardo Pastore

 P.S.: Afinal, por que o Lollapalooza foi no Jockey Club?

          Porque Band of Horses.

 

Roger Waters e a Parede

Publicado: abril 2, 2012 em Contingência

Este texto, como narrativa, é um fracasso. Não há o que ser narrado. Aquilo apenas pôde ser vivido por quem esteve lá. Quem experimentou na carne. De resto, largo essas palavras ao sabor do vento, ao léu. Trata-se apenas de uma última tentativa de registrar o que se passou. Um ímpeto. Um ímpeto fugaz e fracassado.

Depois de ontem, sobram apenas a ruína, a desmemória. Aqui do alto, largado numa poltrona mínima de corredor, faço um último esforço de organizar as cenas, as músicas. Tento agarrar um solo de guitarra. O grandioso solo esculpido por Gilmour para “Another Brick in the Wall”.

Então as notas se desencontram. Tudo se perde no cansaço, na ressaca. A aeromoça é bonita. Perfumada. Esbarra suas coxas a todo instante em meu cotovelo. Deveria ser educado com ela, e recolher meu braço. Permaneço inerte, preso à uma confusão de lembranças. Shakespeare sabia descrever essas ressacas. Escreveu algo como “a vida é um conto tonto Dito por um idiota, cheio de som e fúria, significando nada”. E a aeromoça continua correndo de lá pra cá, esbarrando no meu antebraço. Arremessando pães e suco de manga light aos passageiros.

Ver o show do Roger Waters é como ser atropelado por um jogador de rugby de dois metros de altura e 150 quilos. Esse jogador se abaixa, corre em direção às suas pernas e lhe joga para o alto. Você participa dessa cama de gato com a mesma motivação de um boneco de pano. Tudo gira e é belo. Sente a velocidade do vento. Você segue acelerando e rodopiando, até aterrizar na grama.

Nós chegamos ao show e logo nos deparamos com AQUELA parede, que vai de lado a lado do Morumbi. E ela tem uns buracos no meio. Então eles vão terminando de construí-la, no decorrer da apresentação.

Logo no início, eles largam uma espécie de aviãzinho de guerra, lá de cima, preso num holofote do estádio. O avião faz um estrondo danado e derruba alguns tijolos de papelão. No final, até conseguimos roubar uns tijolos. Não sei para quê. Mas até que foi bom.

O show vai em diante. Bonecos despencam lá do teto do palco. Bichos grandes, disformes. São macabros. Provavelmente, um professor de Roger e também sua mãe severa. Os dois flutuam, perplexos. O show vai se tornando mais e mais algo superlativo, sem chance de recuo. As projeções no paredão, em altíssima definição, são hipnotizantes. O tsunami de cores nos leva para um universo transbordante de psicodelia. O fantástico absorve a realidade. Esquecemos do mundo, do trabalho e das pessoas.

Nas projeções, o narigudo Roger vira um cara forte, um semideus. Mas então ele chega pertinho da gente. Está velho, franzino. As veias lhe saltam do braço. O estômago vai alto. Corre para o outro lado do palco, frágil, parece que vai desmontar. Na tela, parece um thor musculoso cruzando a grande muralha da China.

A apresentação é um líbelo contra a guerra. Tudo vai ficando muito sério. Fogos de artifícios simulam uma saraivada de metralhadora. Helicópteros voam nos amplificadores. O som é perfeito, melhor do que se fosse de verdade. Circulam pelas caixas espalhadas pelo estádio. Fichas de pessoas mortas vão aparecendo no telão, e a foto de cada pessoa vira um tijolo. Roger dedica o show a Jean Charles, aquele brasileiro morto por engano pelos policiais, no metrô de Londres. “All in all you’re just another brick in the wall”.

Nós não sabemos o que de fato é uma guerra. Nem temos um motivo muito claro para pensar sobre isso. Mas acho que esses caras, esses caras do Pink Floyd, eles carregaram alguma coisa. E colocaram isso nas músicas. Especialmente no The Wall. A guerra é feita, para depois os países fazerem alianças e acordos. A dívida é negociada. E no fim, restam apenas os mortos, dos dois lados. Coisas da vida.

Roger segue em seu ímpeto de criticar o governo, o consumo, a guerra. Não sabemos ao certo se é realmente uma mensagem séria, mas dá para ficar triste e pensativo. Enquanto Roger canta um verso “mother should I trust the government”, aparece escrito no paredão “nem fudendo”. Assim, em Português mesmo.

Então soltam na plateia um GIGANTESCO porco inflável. Nós imediatamente o chamamos de El Porco. El Porco vem em nossa direção. Nós o pegamos e ficamos bastante loucos com aquele porco preto sobre nossas cabeças. Gritamos “El Porco, El Porco”, até a rouquidão. Esmurramos a barriga do suíno, na qual estavam escritas algumas frases. Algo do tipo “- copa + educação”. El Porco é levado pelas mãos das pessoas. Segue em diante, acima da multidão, cumprindo seu único e verdadeiro destino: o mosh.

Fato é que depois da passagem de El Porco, nós saímos do torpor. El Porco nos lembra que, afinal, estamos ali num espetáculo de música. Único e imperdível. Nada mais.

Depois de quase duas horas, o muro branco é finalmente destruído em um só movimento. Acaba o show, e Roger volta ao palco para agradecer ao público com sua banda. Parecem uma trupe de velhinhos jogadores de boliche. Tocam Outside The Wall.

E depois saem, um a um. Um deles dedilha um banjo. As luzes do estádio se acendem. A realidade volta aos poucos. Os amigos ali por perto. Sorrisos nos rostos. É realmente ótimo ver um show desses com um bando de loucos desvairados.

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Eduardo Pastore